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O petróleo do pré-sal e o meio ambiente

Publicado . em Vilmar S. D. Berna

Por Vilmar Sidnei Demamam Berna*

Toda escolha traz consigo ônus e bônus. A decisão do Governo Brasileiro em investir na exploração do petróleo do pré-sal, tem bônus de encher os olhos de qualquer um: geração de riquezas e empregos, melhor posicionamento do Brasil enquanto potência mundial, com maior poder de decisão política, geração de impostos que trarão mais dinheiros para os estados e municípios investirem em melhor qualidade de nosso povo, etc. Entretanto, também traz ônus, como colocar o Brasil entre os vilões do aquecimento global e na contramão da história, num momento em que a sociedade mundial discute novos modelos energéticos rumo a uma sociedade de baixo carbono.

O grande vilão do aquecimento global, os EUA, já anunciou que nos próximos dez anos estará investindo em energia solar, eólica, biomassa, para se livrar da dependência do petróleo. O Governo Brasileiro está decidindo exatamente o contrário, apostando que, daqui a uma década, quando a exploração do petróleo do pré-sal estiver chegando ao mercado, encontrará um mundo ainda carente de petróleo. Será? A idade da pedra não acabou por falta de pedras! Assim como a idade do petróleo não irá acabar por falta de petróleo! Em quanto tempo o petróleo continuará custando caro o bastante que justifique o investimento para tirá-lo de onde está, diante de um Planeta cada vez mais aquecido?

Será que a nova sociedade de baixo carbono estará disposta a continuar correndo riscos com o uso de combustível comprovadamente aquecedor do nosso Planeta? Os oceanos estão aumentando de nível, ainda discretamente, mas cuja tendência é só crescer na próxima década, por conta do derretimento do gelo nos pólos e pela expansão da própria massa líquida, mais aquecida. E quando este aumento dos oceanos começarem a atingir mais fortemente as cidades, e forçar sua infra-estrutura, obrigando os governos a investirem mais e mais dinheiro de impostos para manter o mar afastado? A riqueza trazida pelo petróleo do pré-sal valerá a pena?

A decisão de usar o petróleo do pré-sal precisa ser acompanhada de um planejamento e um compromisso com investimentos de parte dos lucros para mitigar os danos que o aquecimento global trará para as cidades, principalmente com o aumento do nível dos oceanos. A Holanda já gasta hoje milhões de dólares de seus contribuintes para manter o mar afastado. Estaremos nos encaminhando para um cenário parecido? Se tomamos a decisão por aumentar o ‘cobertor’ de gases de efeito estufa sobre o Planeta, também precisamos estar preparados para as suas conseqüências, evitando a lógica de capitalizar os lucros do petróleo pré-sal e socializar seus prejuízos para os contribuintes!

Também é importante planejar o investimento para neutralizar o carbono que será emitido com o uso desse petróleo. Só plantar milhões e milhões de árvores não será suficiente, embora será importante principalmente para reconstituir áreas degradadas de propriedades rurais e unidades de conservação, formar corredores florestais entre ilhas de florestas. Existem outros projetos que podem capturar mais gases aquecedores do planeta, como, por exemplo, transformar os mais de 3.600 lixões a céu aberto que existem no Brasil em aterros sanitários com redes de recolhimento do gás metano, investir em novas rações que diminuam o arroto do gado, investir em novas tecnologias limpas que resultem na diminuição ou neutralização das emissões de carbono, etc.

Esperamos que o Fundo de Mudanças Climáticas, proposto pelo Minc e aprovado pelo Lula, caminhe nesta direção. Segundo o Ministro, serão destinados 10% do lucro do setor petrolífero para este fundo, cerca de R$ 1 bilhão ao ano, dinheiro que incidirá desde agora para quem já atua na área, mas que ganhará mais recursos com a exploração do petróleo do pré-sal.

Tirei esta foto em janeiro de 2000, por ocasião do vazamento de óleo na Baía de Guanabara. E republico agora, como um alerta sobre as conseqüências de nossas escolhas. Nem empresas, nem governos, nem consumidores ou cidadãos querem que novos acidentes ambientais como este voltem a acontecer, mas enquanto nossa decisão for pelo uso do petróleo, esta é uma possibilidade bem concreta. Na ocasião, recolhemos centenas animais cheios de óleo, com a ajuda de mais de 200 voluntários ambientais, leitores e parceiros que atenderam a nossa convocação para, em vez de continuarem como passivos observadores do desastre, decidissem colocar a ‘mão na massa’. Esses bravos colaboradores fizeram a diferença no resgate e recuperação dos animais vítimas daquele enorme desastre ambiental, que de outra forma estariam condenadas à morte, embora a taxa de mortalidade ficasse em torno de 50%!

Saímos mais fortalecidos e maduros deste triste episódio. A própria Petrobrás, responsável direta pelo vazamento, investiu na modernização de suas instalações, no treinamento de seu pessoal, na aquisição de tecnologias ambientais para a prevenção de acidentes ambientais. Pelo nosso lado, descobrimos que não bastava ter boa vontade ambiental e disposição para o trabalho voluntário! Descobrimos que estávamos completamente despreparados para a tarefa, além de não dispor dos equipamentos necessários. Criamos o então IBVA – Instituto Brasileiro de Voluntários Ambientais que mais tarde foi redenominado para dar origem à REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental.

Na ocasião, o presidente da Petrobrás desceu de helicóptero junto a uma de nossas equipes de voluntários, no manguezal de Magé, onde nos esforçávamos para resgatar as aves cheias de óleo, e viu nossas dificuldades, de capacitação e de equipamentos. Comprometeu-se em nos ajudar. Encaminhamos, a seu pedido, um projeto que visava capacitar e mobilizar os voluntários ambientais através da realização sistemática de mutirões ecológicos. Conseguimos que a Petrobrás nos financiasse três mutirões, o que permitiu treinar e mobilizar mais de 500 jovens voluntários. Recolhemos mais de 6 toneladas de lixo flutuante na Baía de Guanabara, retiramos mais de 5 toneladas de areia e lixo do riacho formado após a Cascatinha da Floresta da Tijuca, e mais de 3 toneladas de lixo lançados por banhistas no rio que nasce na Reserva Biológica do Tinguá, na Baixada Fluminense. Tentamos renovar o patrocínio com a Petrobras, mas infelizmente, talvez pela mudança na presidência da empresa, não obtivemos mais sucesso. Uma pena, pois hoje teríamos um enorme contingente de voluntários ambientais capacitados na prática para agir em novos casos de acidentes ambientais, que nenhum de nós quer que aconteça, mas que é certo acontecer enquanto a opção por pelo uso do petróleo.


* Escritor, jornalista e ambientalista, Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente. É fundador da REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental  e editor do Portal e da Revista do Meio Ambiente – www.escritorvilmarberna.com.br

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