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Voluntários Ambientais que fazem a REBIA

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Voluntários Ambientais que fazem a REBIA
A valorização do trabalho voluntário

A primeira pré-condição para ser membro da REBIA é a participação voluntária. Aqui reside, talvez, uma das razões mais simples da capacidade da REBIA de trabalhar sem hierarquia: pessoas (ou organizações) participam da rede quando querem e porque assim o desejam. As pessoas e organizações parceiras não são obrigadas a fazê-lo; decidem compartilhar do projeto coletivo da REBIA porque acreditam e investem nela, como um livre exercício da cidadania socioambiental e em vínculos de solidariedade estabelecidos de forma espontânea.

Para a REBIA, a noção de gratuidade é importante por dois motivos. Primeiro, ela demonstra que não é a lógica da troca econômica que orienta as relações no interior da rede. Em segundo lugar, fornece as bases para se compreender o espírito de cooperação que rege todo o trabalho. A gratuidade, que não se encaixa em lugar nenhum no arcabouço conceitual do Mercado, é portanto a condição subjacente à participação na REBIA.

Gratuidade e desejo são dois dos fluxos psicossociais que deflagram a participação voluntária na REBIA. São processos espontâneos, profundamente humanos, que movem as pessoas em direção a projetos que transcendem a lógica acumulativa do lucro e a ambição de mercado. Nesse sentido, a REBIA se sustenta sobre o exercício do que poderíamos chamar de paixões humanas solidárias, próprias dos vínculos afetivos sociais.

A prática da cooperação desinteressada, que pode ser encontrada num sem-número de situações cotidianas, em ambientes familiares, mundanos ou públicos, é uma manifestação clara desse agenciamento de solidariedade inerente ao convívio social. A participação voluntária, assim compreendida, não é algo previamente dado, mas surge mediante uma tomada de decisão. É, por conta disso, no caso da REBIA, um investimento deliberado dos sujeitos num projeto coletivo que eles assumem e defendem. Contudo, do mesmo modo como ocorre em outras manifestações de vínculos afetivos, como na relação amorosa, o desejo e a vontade se alteram, mudam de objeto, podem perder força e desaparecer. Redes são organizações fluidas, que se submetem à dinâmica da variação dos afetos de quem participa delas. Redes são estruturas organizacionais frágeis como os desejos humanos, porém tão fortes quanto eles.

A idéia de animação surge na REBIA como o conjunto de ações necessárias para alimentar o desejo e o exercício da participação, para dar ânimo renovado e vigor às dinâmicas de conexão e relacionamento entre os integrantes. Objetivamente, tudo o que se refere à promoção da participação e da interação é uma ação de animação. Na prática da REBIA, a gestão da comunicação pode certamente ser entendida como instrumento de animação, pois a troca de informação mobiliza igualmente afetos, fornece a base para decisão, produz compromisso e senso de pertencimento e orienta a ação. Aliás, a comunicação é o dispositivo de animação por excelência.

Fóruns da REBIA

A REBIA vem incentivando as conexões entre cidadãos e cidadãs ambientais de todo o país através dos seis fóruns livres de debates socioambientais, que já reúnem hoje mais de 3.000 cidadãos e cidadãs ativos:

REBIA Centro-Oeste
REBIA Nacional
REBIA Nordeste
REBIA Norte
REBIA Sudeste
REBIA Sul

Outros fóruns da REBIA

Amigos do Planeta
Escritor Vilmar S. D. Berna
Observatório da Cidadania Socioambiental
Rede de Colaboradores e Jornalistas Voluntários da REBIA

Embora a REBIA seja o terreno fértil para a ação difusa e diferenciada (da qual nem todos participam), ela é necessariamente uma dinâmica coletiva. Isto é: mesmo que permita e valorize a ação individual de cada ponto, A REBIA é um ambiente de relacionamento entre um conjunto grande e diferenciado de atores. A REBIA é, portanto, um espaço de relacionamento e, como tal, promove a interação entre os participantes. Tal interação representa, como é lógico afirmar, comunicação intensa. Mas, mais do que isso, implica a ocorrência de uma série vasta de influências recíprocas. No relacionamento, assim como na prática da comunicação, o que há é uma profunda troca de fluxos formadores e reguladores, na qual uns vão construindo, moldando, alterando impressões, idéias, visões de mundo, valores e projetos dos outros e vice-versa. Esse ambiente de troca e auto-regulação coletiva, baseado na comunicação, faz de uma coleção de elementos díspares um grupo, um todo orgânico, uma comunidade. A comunicação, nesse processo, não só é o meio pelo qual se dá a interação, mas sobretudo o insumo necessário para a organização da REBIA. A diversidade dos integrantes e sua dispersão espacial exigem um trabalho de comunicação permanente através dos seis fóruns livres de debates socioambientais da REBIA (Nacional, sul, sudeste, centro-oeste, norte e nordeste) para dar organicidade ao conjunto. Melhor dizendo, é somente quando há comunicação que o conjunto se torna orgânico. Nesse sentido, a rede depende dos processos de comunicação para constituir-se como tal. A articulação das múltiplas lideranças e a devida coordenação de suas ações diferenciadas só é possível mediante a troca de informação. Este é o elemento regulador do sistema.

Os fóruns da REBIA cumprem especialmente duas funções: a de veículo de notícias e a de instrumento de troca de informações gerenciais e operacionais. No primeiro caso, função a que se presta muito bem, todos podem enviar e receber notícias de todos, a qualquer hora. No segundo caso, os Fóruns da REBIA funcionam como instrumento de troca de informações operacionais quando estas forem do interesse de todos e se referirem a ações das quais todos participam, como planejar e executar uma campanha ou ação ambiental de protesto ou reivindicação. Do contrário, quando forem relativas a apenas uma parte dos integrantes, as mensagens operacionais contribuem para aumentar a quantidade de lixo informativo que há nas listas e, nesse sentido, se mostram contraproducentes. Seria mais interessante usar o e-mail nesse caso, por intermédio de mensagens de circulação dirigida, isto é, endereçadas somente aos diretamente envolvidos nas ações em questão. Por isso entre as regras dos Fóruns REBIA reprime-se o envio de spam de qualquer natureza. A terceira função dos Fóruns da REBIA é a de, propriamente, permitir o debate de determinados temas (o que lhe dá tecnicamente nome).

Os fóruns da REBIA não são apenas uma lista ampla e genérica de assuntos diversos, mas podem desdobrarem-se em Salas sobre temas específicos, segmentadas por função, público ou projeto.

Outro uso dos Fóruns da REBIA é a de servir como sistema de deliberação à distância. Tecnicamente, os Fóruns REBIA permitem que decisões sejam apresentadas, discutidas e definidas de forma coletiva, com a participação de todos e com uma margem razoável de controle do processo.

Sendo uma rede de democratização de informação socioambiental, a REBIA adotou a organização na forma de rede pois, segundo Fritjof Capra ("A Teia da Vida"), a circulação de informação de forma não-linear (isto é, aleatória, não controlada) é capaz de produzir um processo circular de aprendizagem crescente que leva, como conseqüência, à reorganização dos próprios elementos do sistema.

"A primeira e mais óbvia propriedade de qualquer rede é a sua não-linearidade – ela se estende em todas as direções. Desse modo, as relações num padrão de rede são relações não-lineares. Em particular, uma influência, ou mensagem, pode viajar ao longo de um caminho cíclico, que poderá se tornar um laço de realimentação. (...) Devido ao fato de que as redes de comunicação podem gerar laços de realimentação, elas podem adquirir a capacidade de regular a si mesmas. Por exemplo, uma comunidade que mantém uma rede ativa de comunicação aprenderá com seus erros, pois as conseqüências de um erro se espalharão por toda a rede e retornarão para a fonte ao longo de laços de realimentação. Desse modo, a comunidade pode corrigir seus erros, regular a si mesma e organizar a si mesma. Realmente, a auto-organização emergiu talvez como a concepção central da visão sistêmica da vida, e, assim como as concepções de realimentação e auto-regulação, está estreitamente ligada a redes."

A autogestão horizontal

Na medida em que os integrantes da REBIA são diferentes entre si, outro fundamento básico do modo horizontal de operação é o respeito à diferença. Ser autônomo quer dizer ser diferente, ter modos diferenciados de agir, pensar e existir. Autonomia e diferença são as duas faces de uma mesma concepção. O respeito a esses princípios implica, dessa maneira, uma série de desafios gerenciais e operacionais à REBIA e irá resultar na conformação de outros princípios organizacionais que têm a função de garantir a horizontalidade do sistema: isonomia, desconcentração de poder, multiliderança e democracia. Tais princípios - de caráter eminentemente político tentam realizar, numa arquitetura organizacional, o investimento na participação, na criatividade e na diversidade, característico da teoria e da prática libertárias. Mas eles também são intrínsecos à morfologia da rede. A arquitetura não-linear e complexa da conectividade não admitiria outro modo de operação.

Ao mesmo tempo em que distribui o poder, a REBIA também realiza uma operação de potencialização ou fortalecimento de cada um. Como cada ponto, pelas propriedades morfológicas da rede, pode ser o "centro" do sistema, cada integrante da rede recebe um investimento de confiança e poder para cumprir tal função. Todo o poder da REBIA converge para cada ponto, conforme as circunstâncias. Nesse sentido, qualquer participante da rede pode funcionar como "representante" da rede ou assumir-se como detentor de todo o poder. Ele deixa de ser um pedaço do conjunto, para tornar-se um meio pelo qual o conjunto se exerce. A REBIA está inteira em cada ponto. Essa distribuição holográfica do poder na rede produz uma estrutura organizacional que muitos analistas chamam de "policéfala" (com várias cabeças). De fato, na medida em que os integrantes da rede são pares entre si, não há espaço para relações de subordinação e o poder é desconcentrado, a organização só pode ser "liderada" por muitas cabeças.

O trabalho na REBIA só é efetivo quando dá conta de promover sinergia entre seus membros, de conectá-las, interligá-las num diálogo produtivo. Articulação de múltiplas lideranças implica, além de conectividade, comunicação, operação conjunta e um tipo especial de "coordenação", realizada de forma coletiva, operação conjunta, co-produção de ordem, co-trabalho, sem os quais a dinâmica da conectividade torna-se vazia e sem sentido. A REBIA põe em ação uma dinâmica de comunidade. Esta se exerce nas redes por meio de um processo de interlocução (comunicação), ação coordenada (coordenação) e decisão compartilhada (democracia).

O trabalho na REBIA depende, a todo momento, da ação autônoma de cada um, de participação ativa, sem a qual nenhuma iniciativa vai adiante. Entretanto, o respeito à autonomia de seus integrantes não significa ausência de acordos e normas. O funcionamento da REBIA, aliás, depende de um pacto que orquestre uma "coordenação das autonomias", garantindo, num só movimento, a ação coletiva e a individualidade de cada membro da REBIA.

Esses aspectos - ambiente de relacionamento e processos de comunicação – sustentam outro princípio do funcionamento da REBIA: a democracia, que é o pressuposto lógico da desconcentração de poder, do respeito à autonomia e à diversidade e da multiliderança. Aqui, o aspecto mais evidente se refere aos mecanismos de resolução de conflitos, de construção coletiva de consensos e de decisão compartilhada. Não haveria outro modelo possível de tomada de decisão numa rede. E é por meio dessa via democrática, também múltipla, de co-ordenação e co-decisão, que a rede "controla" as ações que realiza.

Curiosamente, a experiência da REBIA indica, contudo, que muito pouco das suas ações se controla ou necessita "controle" a partir do coletivo. A prática da ação difusa, ao contrário, na qual cada integrante da REBIA toma suas decisões e empreende suas ações, prescinde, na maior parte das vezes, de consulta ao grupo. Os ‘nós’ da REBIA, autônomos e investidos de poder, basicamente operam sem pedir permissão, orientados por um princípio de autogoverno compartilhado por todos. Um grande pacto inicial, uma espécie de consenso primordial orientador da REBIA, é o parâmetro das ações e decisões difusas e tem-se revelado suficiente para alimentar a participação, promover a integração e evitar "desvios" de conduta, sem que seja necessário adotar qualquer postura coercitiva (ou fazer recurso à força, uma prerrogativa comum dos "comandos centrais" das organizações hierárquicas).

O autogoverno na REBIA é possível porque ela é, antes de mais nada, uma "comunidade de propósito". Quando pessoas decidem participar da REBIA ou se integrar a uma dinâmica de rede, elas o fazem em função de um objetivo comum - seja numa campanha ambiental ou num projeto da REBIA. A adesão voluntária é a garantia do estabelecimento de laços numa rede, mas essa adesão só nasce em função de um motivo que consiga reunir em torno de si as expectativas e os investimentos de cada um dos diferentes integrantes. A razão de existir da REBIA é o conjunto de propósitos comuns a todos os participantes – e, em geral, esse conjunto de propósitos incorpora também um conjunto de valores comuns. Participar de uma rede implica, portanto, compartilhar os mesmos propósitos e os mesmos valores comungados pelos demais integrantes da rede. Daí, mais uma vez surge com ênfase a idéia de comunidade.

Em se tratando de redes não há receitas prontas, muito pelo contrário, a REBIA espera que cada novo membro que chega seja ele próprio um elo dessa Rede, um facilitador ou simplesmente interessado no assunto, e conheça um pouco mais sobre a dinâmica da organização em rede, perceba a beleza e a diversidade de suas formas e aceite o desafio de reinventar, adaptar e reconstruir essas idéias a partir de sua própria experiência e realidade local.


FONTE: Ao publicar o livro “REDES - UMA INTRODUÇÃO ÀS DINÂMICAS DA CONECTIVIDADE E DA AUTO-ORGANIZAÇÃO, a ONG WWF-Brasil apostava que estaria contribuindo para que outras redes se formassem e se expandissem e encontrassem caminhos criativos e transformadores para construir sociedades mais justas e sustentáveis. Para a REBIA, esta aposta deu certo. Transcrevemos aqui diversos trechos do livro, e integramos à realidade da REBIA, para também somarmos a esta aposta do WWF. A publicação do livro foi possível graças ao apoio do Escritório para América Latina e Caribe da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional - USAID. A coordenação do trabalho coube a Larissa Costa, Viviane Junqueira, Cássio Martinho e Jorge Fecuri e teve por autor Cássio Martinho, com a edição de Rebeca Kritsch. A equipe contou ainda com Viviane Amaral (REBEA) e Mônica Borba (REPEA).
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