Existe um trabalhador invisível que contribui para a produção de cerca de um terço de tudo que o ser humano come no planeta. Não usa máquinas, não recebe salário e opera em escalas que nenhuma tecnologia consegue replicar.
Estamos falando das abelhas e dos demais polinizadores, organismos que prestam à agricultura um serviço ecossistêmico cujo valor econômico global a FAO estima em mais de US$ 577 bilhões por ano.
No Brasil, país com uma das maiores biodiversidades de polinizadores do mundo, esse serviço é ao mesmo tempo abundante e ameaçado.
Entender como funciona, quais culturas dependem dele e o que ameaça sua continuidade é fundamental para qualquer produtor que queira maximizar a produtividade das suas lavouras de forma sustentável.
Como funciona a polinização e por que ela importa para a produção
A polinização é o processo pelo qual o pólen é transferido das estruturas masculinas para as femininas de uma flor, possibilitando a fertilização e a formação de frutos e sementes.
Nas plantas com flores, esse processo pode ocorrer pelo vento, pela água ou por animais, sendo os insetos os agentes mais eficientes na maioria das culturas agrícolas.
Polinização entomófila versus anemófila
Culturas como milho, trigo e arroz são polinizadas pelo vento (anemófilas) e não dependem de insetos para sua reprodução. Mas uma parcela enorme das culturas de maior valor econômico e nutricional, incluindo frutas, hortaliças, oleaginosas e leguminosas, depende de polinizadores animais, especialmente abelhas, para garantir uma frutificação adequada.
A diferença entre uma lavoura bem polinizada e uma com deficiência de polinização pode ser enorme. Em culturas como o maracujá, a polinização inadequada resulta em frutos deformados, com baixo peso e menor teor de polpa.
Em amendoim, a formação de vagens depende diretamente da visita de abelhas às flores. Em café, estudos mostram que a presença de polinizadores aumenta a produtividade em até 20% e melhora a uniformidade dos grãos.
O papel específico das abelhas
As abelhas são os polinizadores mais eficientes para a maioria das culturas agrícolas por três razões principais: visitam um grande número de flores por dia, coletam pólen ativamente como fonte de proteína para a colmeia e apresentam fidelidade floral, ou seja, tendem a visitar flores da mesma espécie em uma sequência, o que aumenta a eficiência da polinização cruzada.
No Brasil, a Apis mellifera (abelha-europeia) é a espécie mais utilizada na polinização dirigida, mas o país abriga mais de 300 espécies de abelhas nativas com diferentes perfis de comportamento e eficiência de polinização para culturas específicas.
As culturas que mais dependem de polinizadores
O impacto dos polinizadores varia significativamente entre culturas. Algumas são completamente dependentes, outras têm produtividade significativamente aumentada e algumas são praticamente independentes.
| Cultura | Dependência de polinizadores | Impacto na produtividade |
| Maracujá | Alta (obrigatória em algumas variedades) | Sem polinização, frutos não se formam |
| Melão e melancia | Alta | Redução de 80% a 90% sem polinizadores |
| Café arábica | Moderada a alta | Ganho de 15% a 25% com polinização adequada |
| Amendoim | Moderada | Redução de 30% a 50% sem polinizadores |
| Soja | Baixa | Pequenos ganhos em condições específicas |
| Milho | Muito baixa | Polinização pelo vento é suficiente |
Para produtores de fruticultura, horticultura e algumas culturas de grãos, investir na conservação e no manejo de polinizadores é uma estratégia direta de aumento de produtividade, com retorno econômico mensurável e frequentemente superior ao custo de outras intervenções agronômicas.
As abelhas nativas brasileiras: um ativo subestimado
O Brasil é um dos países com maior diversidade de abelhas nativas do mundo. Esse patrimônio biológico tem valor econômico direto e potencial ainda largamente inexplorado para a agricultura nacional.
Meliponíneos: as abelhas sem ferrão
As abelhas sem ferrão, pertencentes à tribo Meliponini, são exclusivas das Américas e têm no Brasil seu maior centro de diversidade. Espécies como jataí, mandaçaia, uruçu e tubuna são altamente eficientes na polinização de culturas tropicais e têm comportamento mais gentil do que a abelha-europeia, facilitando o manejo próximo às lavouras.
A meliponicultura, criação de abelhas sem ferrão, tem crescido no Brasil tanto pelo valor do mel produzido, que alcança preços muito superiores ao mel convencional, quanto pelo interesse na polinização dirigida de culturas hortícolas e frutíferas.
Abelhas solitárias e sua contribuição
Além das espécies sociais, o Brasil abriga centenas de espécies de abelhas solitárias que não formam colmeias, mas que desempenham papel relevante na polinização de plantas nativas e cultivadas.
Essas espécies dependem de habitats específicos, como solos expostos para nidificação e vegetação nativa para recursos florais, o que as torna especialmente vulneráveis às práticas agrícolas que eliminam essas condições.
O portal Mais Agro aborda em detalhes a importância das abelhas para a polinização na agricultura brasileira e como os produtores podem contribuir para a conservação desses polinizadores dentro e ao redor das suas propriedades.
O que ameaça os polinizadores no Brasil
Os polinizadores enfrentam pressões múltiplas que comprometem suas populações em escala global e local. No Brasil, os principais fatores de risco incluem:
Perda de habitat
A conversão de vegetação nativa em áreas agrícolas reduz a disponibilidade de recursos florais e de locais de nidificação para as abelhas nativas. Paisagens agrícolas homogêneas, sem vegetação de bordadura, mata ciliar ou fragmentos de vegetação nativa, oferecem muito menos condições para a sobrevivência de populações de polinizadores do que paisagens mais diversificadas.
Uso de agroquímicos
Alguns defensivos agrícolas, especialmente inseticidas neonicotinoides e piretroides, apresentam toxicidade documentada para abelhas. A exposição sublethal, em doses que não causam morte imediata mas afetam o comportamento, a navegação e a reprodução das abelhas, é um campo de pesquisa ativo com resultados preocupantes.
A aplicação de inseticidas durante o período de floração das culturas é o cenário de maior risco, pois aumenta a probabilidade de contato das abelhas com o produto.
Boas práticas como aplicação noturna, quando as abelhas estão na colmeia, escolha de formulações menos tóxicas para polinizadores e respeito às janelas de carência são medidas que reduzem significativamente o risco.
Doenças e parasitas
A abelha-europeia é afetada pelo ácaro Varroa destructor, parasita que se reproduz dentro das células de cria e enfraquece progressivamente as colônias. O Varroa está presente em praticamente todas as colmeias do mundo e representa um dos maiores desafios sanitários da apicultura, exigindo manejo contínuo para manter as populações em níveis que não comprometam a viabilidade das colônias.
Como o produtor pode proteger e promover a polinização
A conservação de polinizadores não é exclusividade de reservas naturais ou de propriedades com grandes áreas de vegetação nativa. Há medidas práticas que qualquer produtor pode adotar para melhorar a disponibilidade e a saúde dos polinizadores nas suas lavouras.
Manutenção de vegetação de bordadura
Faixas de vegetação nativa ou de plantas melíferas nas bordas dos talhões fornecem recursos florais e habitats de nidificação para abelhas nativas ao longo de todo o ano, inclusive nos períodos em que as culturas comerciais não estão em floração.
Plantas como girassol, crotalária e diversas espécies nativas do Cerrado e da Mata Atlântica são altamente atrativas para polinizadores e podem ser cultivadas nas bordas sem competir com as culturas comerciais.
Calendário de aplicação de defensivos
A implementação de um protocolo de aplicação que evite o período de floração das culturas e as horas de maior atividade das abelhas, geralmente entre 8h e 17h, reduz significativamente o risco de intoxicação dos polinizadores.
Comunicar os apicultores da região antes de aplicações em grandes áreas é uma prática de boa vizinhança que protege tanto as colmeias quanto a reputação do produtor.
Polinização dirigida para culturas dependentes
Para culturas com alta dependência de polinizadores, como maracujá, melão e algumas fruteiras, a locação de colmeias de abelha-europeia durante o período de floração é uma prática estabelecida que garante densidade de polinizadores suficiente para uma frutificação adequada.
O custo da locação é amplamente compensado pelo ganho de produtividade obtido.
Um serviço que não tem substituto
A polinização por abelhas é um dos poucos serviços ecossistêmicos para os quais não existe substituto tecnológico viável em escala. Polinização manual, como a praticada em lavouras de baunilha e em algumas pesquisas experimentais, tem custo proibitivo em qualquer escala comercial relevante.
Proteger os polinizadores é, portanto, proteger a própria base produtiva da agricultura. Para o produtor que cultiva frutas, hortaliças ou qualquer cultura com dependência significativa de polinização, investir na conservação das abelhas é uma das formas mais eficientes e menos onerosas de garantir produtividade safra após safra.
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